Discurso do Presidente Donald Tusk aos Presidentes dos Parlamentos da UE, em Roma

Conselho Europeu
  • 17/03/2017
  • 17:20
  • Discurso
  • 140/17
  • Assuntos institucionais
17/03/2017
Contactos para a imprensa

Preben Aamann
Porta-voz do Presidente do Conselho Europeu
+32 22815150
+32 476850543

É impossível ser-se convidado do Senato della Repubblica e não sentir a história de que estão impregnadas as paredes do Palazzo Madama. Vêm-nos à memória não só os dramas políticos que toda a gente vive agora quotidianamente, mas também séculos de grandes acontecimentos que são a certidão de nascimento da Europa. Por exemplo, Cícero denuncia Catilina, fresco da autoria de Cesare Maccari – uma das obras-primas que ornamentam as paredes do Senado – é absolutamente perfeito para hoje. É uma alegoria política da luta e do triunfo das instituições democráticas contra o populismo.

Isto relembra-nos, em primeiro lugar, que a força de qualquer comunidade política depende da sua vontade de sobrevivência, do seu vigor e da sua inteligência. E, em segundo, que no combate político darwiniano, as palavras sempre foram, e sempre serão, as armas mais poderosas.

Cícero afirmou que a liberdade é a participação no poder. Até os antigos gregos e romanos se debatiam com o problema do que significa realmente ser-se livre. Há sessenta anos, os estadistas de seis países decidiram que a única verdadeira liberdade era a liberdade de agir em conjunto. Por outras palavras, que a soberania significava ter um lugar à mesa. Foi por esta razão que o Tratado de Roma foi assinado em 1957. Sucede que eu nasci nesse mesmo ano e que toda a minha vida foi moldada pela realidade construída com base no Tratado de Roma. Julgo que não preciso de vos dizer como é importante para mim pessoalmente estar aqui hoje convosco.

Evidentemente, tudo parece mais nobre, deliberado e calculado, visto na perspetiva de hoje. Existe uma tendência para lembrar os signatários do Tratado de Roma como génios políticos e evangelistas de uma Europa Unida. A verdade é que se tratava de dirigentes com as suas dúvidas pessoais, que estavam sob a enorme pressão dos acontecimentos e num estado de profunda vulnerabilidade. A impotência coletiva da Europa após a Segunda Guerra Mundial obrigou-os a reunirem-se. As alternativas eram muito pouco apelativas e os horrores da destruição causada pela guerra ainda estavam claramente presentes no quotidiano.

A vulnerabilidade destes países europeus, tolhidos de medo, deu-lhes a humildade, a clarividência e a grande sabedoria de se reunirem para assinar o Tratado de Roma. Foi assim que se iniciou um processo que, desde então, devolveu a liberdade e a prosperidade a muitos mais países a leste e a oeste. Ajudou-nos a compreender que quando a Europa está fraca, cada um dos países que a compõem estará fraco. Se a Europa for forte, os seus Estados -Membros serão fortes. Só através da união podemos concretizar a nossa própria soberania – ser realmente livres – em todo o mundo. Isto era verdade na altura, continua a sê-lo hoje e continuará a sê-lo nos próximos sessenta anos.

O Tratado de Roma triunfou também, porque foi criado e apresentado por governos com base no consentimento democrático. Os parlamentos nacionais – de que vós sois representantes – emprestaram desse modo os seus poderes à Comunidade Europeia, com uma mensagem: "Queiram agir no nosso interesse comum". Desde então, esse empréstimo tem vindo a ser pago com juros, apesar de haver desilusões e atrasos.

Alguém disse um dia: "A Europa é como uma árvore. Cresce todos os dias, mas nunca se a crescer." É um sentimento bastante romântico, mas ainda assim é verdade. A partir da semente do Tratado de Roma cresceram alterações que mudaram o mundo à nossa volta de tal maneira que a maior parte das pessoas já nem se lembra de como as coisas eram anteriormente. O Tratado deu-nos abertura de espírito e sociedades abertas. E, claro está, o maior mercado do mundo para a nossa prosperidade. Como jovem que cresceu à sombra da Cortina de Ferro, estas coisas eram quase impossíveis de imaginar, embora eu sonhasse que um dia poderiam acontecer.

O aniversário que se comemora para a semana é um momento para reflexão sóbria e celebração. Mesmo que possamos ver as feridas na nossa economia a sarar lentamente, ainda há muitos que desanimam face à dimensão e à quantidade de desafios que atualmente enfrentamos. O maior é a saída do Reino Unido da UE daqui a uns anos. A melhor resposta para estes tempos difíceis é recuperar a humildade, a clarividência e a sabedoria dos signatários originais. Só então poderemos fazer as escolhas certas para o futuro, porque o passado ensina-nos que a Europa dá o melhor de si e é mais criativa quando está mais vulnerável, embora isto pareça paradoxal. A Europa consegue alcançar muito mais quando a sua ambição é modesta e paciente do que quando segue visões grandiosas.

Esta é uma das razões pelas quais me regozijo com facto de a Presidente da Fundação De Gasperi, Maria Romana De Gasperi, ter estado hoje aqui connosco. Este é o momento ideal para recordar as famosas palavras do seu pai: "O futuro não será construído através da força, nem do desejo de conquista, mas sim mediante a aplicação paciente do método democrático, o espírito construtivo da concórdia e o respeito pela liberdade." Porventura estas palavras não serão suficientemente impressionantes na era da política através no Twitter. Mas, ainda assim, aprecio a verdade e o poder que elas contêm. Continuo a acreditar que são suficientes para nos orientar daqui para a frente. Muito obrigado. Grazie